O Remo em Belém-PA

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Entrevista: Wilson Reeberg

RemoemBelem(RB): Por que ser Presidente da Confederação Brasileira de Remo?

Wilson: Bom, o meu nome já vem sendo cogitado há vários anos, a vários anos para Presidência. Inclusive quando eu nem tinha intenção de ser Presidente eu já tinha sido convidado pelo próprio Rodney por duas vezes para sucedê-lo e não me interessou. Nos últimos tempos a insistência tem sido muito grande e eu achei que finalmente poderia dar essa contribuição para o remo. Eu acho que tenho conhecimento e competência pra isso.

RB: Como o Senhor avalia o remo brasileiro atual?

Wilson: Acho que o remo brasileiro tá assim tentando ressugir, tentando voltar ao nível que ele tinha há 30 anos atrás, pelo menos na parte técnica. Algumas áreas são novas em relação a algumas décadas, como por exemplo o número crescente de master e a importância deles. O master não vai ganhar campeonatos mundiais e olímpiadas para o Brasil, mas é importante que esses remadores voltem para o esporte e que passem a apoiar os clubes porque é o pessoal que hoje tem contribuições materiais e também técnicas, porque não, e condições morais de levantar o esporte de remo.

RB: Em resumo qual o seu projeto para o remo brasileiro caso seja eleito?

Wilson: O meu projeto eu passaria o dia inteiro falando sobre ele, mas vamos tentar sintetizar. A primeira idéia é a seguinte: é que todos possam participar do processo de reerguimento do remo brasileiro. Que isso não fique somente nas costas de um dirigente, que ninguém ache que vai aparecer aí um Messias que vai fazer isso sozinho. Não existe "Salvador da Pátria". Se cada um não fizer sua parte e que cada um se sinta motivado a fazer sua parte tem que haver um processo democrático, onde as pessoas sintam que são bem vindas nesse processo. Então, a minha maior preocupação é essa, que todos possam participar desse processo de levantamento do remo. E, nunca esquecer que quem faz o remo são os clubes e os atletas. Se esses não participarem do processo, não se sentirem bem vindos, se não forem ouvidos e estimulados não vai haver esporte nenhum que sobreviva sem eles.

RB: Como o Senhor avalia a participação do remo do Brasil nas últimas competições internacionais?

Wilson: Eu acho que não só nas últimas, mas há décadas que o nosso remo brasileiro não vem bem nas competições. E cada vez nós estamos mais distantes. O mundo todo evolui, o mundo todo estuda muito o remo e nós não vemos isso acontecer no Brasil. Vemos pessoas interessadas, querendo fazer alguma coisa mas não sentimos um clima de incentivo a essas pessoas. E os resultados nós vemos nas competições internacionais, qualquer regata séria que se vá lá fora a gente ver que nossos barcos tem ficado entre os três últimos. Isso aí, embora, algumas pessoas se sintam feridas na sua vaidade quando se fala isso, mas é um fato. Os resultados estão aí.

RB: O que o Senhor acha o que falta para o remo Brasileiro dar esse salto?

Wilson: O que eu acho, em primeiro lugar, é conhecimento. Eu parto do princípio que quando você tem conhecimento, você sabe fazer as coisas, você supera todas as dificuldades. E no nosso caso eu acho o que nos falta é conhecimento técnico a nível nacional. Não adiante você ter um ou dois técnicos que conheçam, todos tem que conhecer!. O atleta tem que ser bem orientado e também tem que aprender, também tem que conhecer. No momento que nós tivermos conhecimento pra fazer campeões, nós teremos esses campeões, apesar das dificuldades materiais que existem. Isso tá mais do que provado na história de muitos outros países. Eu sempre dou exemplo da Eslovênia, perdão, é sim, é Eslovênia. A Eslovênia tem 400 remadores no país, no máximo 500. Tem 2 milhões de habitantes, nem se compara a riqueza do Brasil com a riqueza da Eslovênia. Eles tem campeões mundiais, olímpicos, medalhas internacionais aos montes. Nós não temos nada disso.

RB: O Senhor possui diversos artigos de estudos sobre o remo em outros países. O que é que se pode aproveitar para o remo brasileiro?

Wilson: Pode se aproveitar tudo. é questão de ler, assimilar e aplicar.

RB: O remo já foi um esporte de elite no passado atraindo bastante público nas regatas, atualmente não se ver mais isso. Qual a sua proposta para atrair o público para as competições?

Wilson: Hoje em dia você tem uma oferta de esportes muito grande. E cada vez mais bem organizados, cada vez mais atraente e o público também fica cada vez mais exigente. O público de hoje não é aquele de 200 anos atrás. Naquele tempo o único esporte organizado no Brasil era o remo. Hoje o remo tem que competir com dezenas de outros esportes mais atraentes e mais bem organizados. Então não existe nenhuma fórmula mágica para atrair público, o que vai atrair público vai ser a qualidade do espetáculo que nós poderemos proporcionar.

RB: Qual sua proposta para conseguir mais patrocínio para o esporte de remo?

Wilson: Aí nós voltamos a falar de qualidade. Nínguém gosta de se aliar a perdedores, muito menos empresa. Todo mundo quer se asscociar a vencedores. Quando nós formos vencedores, nós vamos ter patrocinadores. Enquanto nós formos perdedores, nós não vamos conseguir nada. A menos que apareça alguém assim com o coração muito grande fazendo caridade, aí tudo bem.

RB: O Senhor conhece a Lei Tó Teixeira do município de Belém que destina 5% do orçamento anual para projetos culturais e de esportes. E que tem vários remadores que estão sendo beneficiados e que estão trazendo resultados, como poderia ser feito algo no mesmo sentido em nível nacional?

Wilson: Praticamente todos os Estados tem uma Lei desse tipo. Praticamente. E muitos municípios tem também tem sua Lei especial para o esporte. O que existe no Brasil todo, não só no caso do remo, é que pouca gente se organiza para usar esse dinheiro. Então mais ou menos, de um modo geral, apenas 30 a 40% dessas verbas são usadas o resto fica por aí, entende, caem em exercício fino, porque os projetos são mal organizados ou as vezes apresentados porque não tem credibilidade. Uma das coisas que constam da minha proposta, é a CBR avalizar os projetos organizados com seriedade seja lá de onde for, de que Estado for, a CBR dar o seu aval para que ele tenha chance de ser aprovado e o remo se beneficiar desses recursos. Os recursos existem, o que tá faltando é capacidade para nós aproveitarmos.

RB: Dentro de seus projetos, feitos na palestra de quarta-feira, está o direito de voto para os atletas para escolha de Presidentes de Federações e da CBR. Quais seriam as vantagens e desvantagens de se fazer isso?

Wilson: Desvantagens eu não vejo nenhuma, a menos que consideremos desvantagens que o povo brasileiro vote para eleger seu Presidente, por exemplo. Eu acho que no momento que eu defendo a participação de atletas, de técnicos, além dos dirigentes do processo de escolha do Presidente, é para que todos se envolvam nesse processo. E que isso passe a ser uma preocupação de todos e não de meia dúzia de pessoas apenas. Para que quando o Presidente eleito pela maioria do pessoal que milita no remo chegar lá, todos possam dizer: "eu ajudei esse camarada a chegar lá". Consequentemente eu fiz a minha parte e também tenho direito de cobrança. E para que os dirigentes não se acomode, e para evitar práticas que nós sabemos que existem de corrupção, de compra de votos, onde muitas vezes o voto de um Estado é dado a preço de banana sem que o dirigente que deu esse voto pense nas consequências do seu ato.

RB: O esporte de remo nos Estado Unidos e nos países da Europa tem a tradição de ser universitário, o quê que falta para acontecer aqui no Brasil ?

Wilson: Hoje aqui no Brasil dificilmente o remo vai ser esporte universitário como praticamente não tem nenhum esporte universitário no Brasil. Existe um ou outro esporte praticado na Universidade, mas esporte universitário, no Estados Unidos é esporte universitário, tem toda uma tradição. Isso aqui no Brasil duvido que aconteça, não tem tradição, o aluno não tem folga para praticar esporte. Então não adianta nós querermos copiar o nosso modelo. Aqui nós temos o nosso modelo na base do clube e o que nós temos que fazer é estimular os clubes que existem e estimular o surgimento de outros clubes. E isso consta da minha proposta. De que maneira? Não é a CBR financiando o surgimento de novos clubes, é propiciando condições, motivando pessoas pra que criem novos clubes. Dando a elas o direito de participar sem a burocracia que existe hoje no esporte.

RB: O que o Senhor aconselha os Clubes do Norte e Nordeste a se tornarem potência no cenário nacional de remo?

Wilson: A primeira coisa é aprenderem mais, aprenderem mais. Sem conhecimento nós não vamos a lugar nenhum. Eu já falei em todos os clubes aqui: "clubes humildes como esses, com garagens precisando de consertos, com poucos barcos como esses, existem no mundo inteiro, inclusive nos países muito ricos. Só algumas diferenças, lá eles fazem campeões e nós não fazemos, por quê?, porque eles sabem fazer campeões e nós ainda não sabemos".

RB: O que o Senhor achou dos treinamentos dos clubes paraenses nesses dias que acompanhou aqui em Belém?

Wilson: Olha, saindo apenas um dia, por uma meia hora em uma lancha, não dar para você saber nada do treinamento deles. Dar apenas pra você ver se o pessoal tá se esforçando, tá em atividade, mas não dá condições de você fazer um julgamento. Porque pra você julgar um treinamento você tem que conversar muito com o treinador, avaliar o nível de conhecimento dele, é necesário que ele tenha registros do treinamento pra saber o que ele vem fazendo ao longo de uma ano por exemplo, aí você vai ter condições de dizer se ele errou, se acertou. Apenas você olhar em uma saidinha de lancha não tem a menor condição.

RB: Algum dia o esporte de remo pode ser profissionalizado?

Wilson: No Brasil não existem esportes profissionais, existem atletas profissionais. O vôlei não é um esporte profissional, o boxe não é um esporte profissional e nem o futebol é um esporte profissional. Existem atletas profissioanais, isso pode ser no remo. Até hoje esse momento, pode até existir já atletas profissionais. Qual é a diferença entre um atleta profissional e um atleta não profissional? O profissional vai ser aquele atleta vai ter um contrato de trabalho com o seu clube, então ele vai participar o esporte em decorrência desse contrato de trabalho com o clube e o não profissional são todos os outros.

RB: O Senhor está lançando sua candidatura aqui em Belém, por que fez aqui pelo Norte do Brasil?

Wilson: Eu estou percorrendo todos os Estados, por que eu acho: Primeiro: é preciso democratizar até o lançamento de uma candidatura. Do contrário nós vamos manter aquele esquema de conversar apenas com o Presidente da Federação e achar que tá tudo resolvido e você corre o risco de ser eleito de uma entidade nacional sendo desconhecido por quem pratica o esporte. Então eu acho que é indispensável você visitar, conhecer a realidade, as pessoas te conhecerem e te julgarem para saber se você tem méritos para ocupar o cargo ou não. Então isso eu estou fanzendo com todos os Estados e em primeiro lugar, dentro dessa proposta de democratização do esporte, então eu acho que o Maomé tem que ir lá embaixo, e não o povo ir procurar o Maomé.

RB: Para finalizar, o que o Senhor deixa de recado para dirigentes, árbitros, técnicos, atletas de remo sobre sua proposta caso seja eleito, algum recado que o Senhor deixa para essas pessoas que participam e que fazem o remo no Brasil ?

Wilson: Eu espero que todo mundo do Pará e de outros Estados se envolvam no processo de escolha dos dirigentes. é um direito democrático de cada um. Nós votamos para Presidente da República, para Governador, para todos os cargos, por quê não podemos votar no Presidente da Confederação?. Então, eu quero que todo mundo se envolva nesse processo, leia a respeito, dê palpites, pergunte ao candidato o quê você pretende fazer, que meios você vai realizar seu planos, para que eles possam ter mais consciência da realidade esportiva e possam também exercer os seus direitos o seu papel de eleitor em todo esse processo. E nunca deixe de estudar o esporte, porque nós só vamos ser aquilo o que nós conhecemos, e aquele conhecimento que dominarmos.


 
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